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Daniel Libeskind: o 37º laureado do Praemium Imperiale em Arquitetura

O que a trajetória do 37º laureado do Praemium Imperiale desperta sobre reinvenção

Antes de desenhar o primeiro museu, Daniel Libeskind era músico. Estudou acordeão em Nova York e Israel, chegou ao nível de virtuose, e então largou tudo para estudar arquitetura na Cooper Union. Não conheço muita gente que troca uma carreira consolidada por um recomeço do zero aos vinte e poucos anos. E é justamente esse tipo de decisão, difícil de justificar no momento em que é tomada, que costuma render as histórias mais interessantes de se contar depois.

A Associação de Arte do Japão anunciou Libeskind como o 37º laureado do Praemium Imperiale em Arquitetura. É um prêmio de peso, mas o que me chamou atenção lendo sobre ele não foi a lista de honrarias. Foi o fato de que seu primeiro grande projeto, o Museu Judaico de Berlim, só saiu do papel muitos anos depois de vencido o concurso. Ele passou boa parte da vida ensinando e escrevendo sobre arquitetura antes de construir alguma coisa que as pessoas pudessem, de fato, visitar.

O peso de esperar por um projeto que ainda não existe

Tem algo desconfortável em acreditar numa ideia que ainda não tem forma física. Libeskind projetou o museu de Berlim pensando em como um espaço poderia carregar memória, ausência, silêncio, sem saber ao certo se aquilo sairia do papel. Fico pensando em quantas pessoas desistem de um projeto (uma reforma, uma construção, uma mudança de bairro) porque o intervalo entre a ideia e o resultado parece longo demais para valer a pena.

Talvez a lição não seja sobre arquitetura. Seja sobre aceitar que boas ideias, as que realmente mudam alguma coisa, quase nunca acontecem rápido. Campinas tem os próprios exemplos disso: obras que levaram anos para sair do papel e hoje fazem parte do dia a dia de quem mora perto, tão incorporadas à paisagem que ninguém mais lembra da espera.

Quando o lugar carrega mais do que sua função original

Depois de Berlim, Libeskind assumiu a direção de planejamento para a reconstrução do World Trade Center, um dos terrenos mais carregados de significado do século. Ele diz que a arquitetura, assim como a música, está conectada ao próprio corpo. Faz sentido pois um espaço bem pensado não é só útil, ele produz uma sensação física em quem passa por ali.

Isso me faz olhar diferente para os cantos de Campinas que carregam alguma história, um casarão preservado no Cambuí, uma praça antiga, um bairro que resistiu à pressa de ser demolido e reconstruído igual a qualquer outro lugar. A cidade também tem esses espaços que dizem alguma coisa além da função que cumprem, e talvez seja por isso que continuo prestando atenção neles, mesmo quando não têm nada de especial no papel.

Reinvenção como método de trabalho, não como exceção

Aos 78 anos, Libeskind ainda dá aulas, ainda desenha à mão, ainda tem um projeto em andamento na Alemanha, o Centro de Descobertas Albert Einstein, em Ulm. Não parou de recomeçar desde que trocou o acordeão pela prancheta.

Não sei se existe uma fórmula pronta aqui. Mas fico com a ideia de que talvez o valor de um trabalho não esteja em quanto tempo levou para ficar pronto, e sim em quanto ele ainda tem a dizer depois de pronto. Vale para um museu em Berlim. Vale, guardadas as proporções, para qualquer projeto que a gente acompanha crescer aqui em Campinas.

Fonte: Praemium Imperiale

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